quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

ANAGRAMAS DO TEMPO


fatos e atos
se repetem
humores e amores
se entretecem
ha tempos de ir e vir
de dramas e tramas
anagramas do tempo
que se enredam
se esgarçam e puem
cores fortes
que nos saturam
e então se diluem
mel e fel
água-forte e aquarelas
luz forte , trevas
e velas
o doce da vida
o acre da morte

por Edson Ovidio

solidON


Falenas entorpecidas
volteiam luzes do celular
como se não houvera 
brilho de olhar ignoto
nada ou ninguem em torno
além do que lhes é remoto
nenhuma ou coisa alguma aquém
como se o ecrã fosse o luar
que faz do seu olhar refém
envolto pela nuvem do wifi
cego, nada além
vanidade que se compartilha
mono-assunto que não cai
entre tantos mares de olhares
ilhas e ilhas
dedos ageis
batepapos digitais
mentes frageis
armadilha, tais e tais
a inação
o dessentir
a solidão

sábado, 10 de outubro de 2015

O CÂNTICO DOS MISÉRAVEIS




São brancos, pardos e pretos
em andrajos nauseabundos
por becos, cantos e guetos
sujos de tempo, terras e barros
miseráveis vagabundos
na desdita do degredo
malditos e infectos escarros
desgraçadas mãos que mendigam
vida de fome e medo
saga sem destino
tudo que vai em saco é um segredo
inclemência dos dias de chuva
e de miséria tão à pino
sob o lixo que amontoam
Não voam 
nem criam Raízes
se aninham em brechas 
sob viadutos
sob ponte
um nicho que não lhes conte
que são infelizes
do não ter
do não ser
do escarnio do tempo
do capricho do vento
da mão que se estende
fingindo caridade
do lixo que lhe supre
com muito mais dignidade

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

SABE UM DIA...!

SABE UM DIA...!



Talvez um daqueles domingos
em que se acorda surpreendido
pelos sons dos pingos da chuva
na janela
Depois de um sonho
da vida tanto mais bela
num dia de muito frio
em que a gente faz juras
a si mesmo
então chora um rio
fuçando gavetas do tempo
sentindo ausências
agruras e ternuras
instando saudades
fragmentos de lembrança
que a gente busca e junta
num grande quebra-cabeças
nas molduras do tempo
o efêmero de outrora
as flores de não-me-esqueças
num tempo sem tempo
outro dia
uma outra hora
um outro agora
o destempo
o cheiro da terra molhada
quando a chuva vai embora
som do vazio
o estio
o agora

terça-feira, 12 de maio de 2015

TODOS OS TONS DE NEGRO


E havia negros minas e jejes
havia negros cambindas e malês
vieram nagos, mandingas e ketus,
Vieram milhares de homens pretos
fétidos e escuros como piche
negros homens e mulheres nús
cansados adentravam o trapiche
bem recebidos pelos urubus
tanto de ódio e picumãs
infectos de sarna e piolhos
escravos sem mais amanhãs
do porão, sob ferrolhos
cheios de angustias e medo
rumo a sorte ou a morte
presas do injusto degredo
de escuro e imundo tumbeiro
da infâmia do cativeiro
Negros cá morriam de banzo
outros matava o cansaço
a tristeza se perdia no semba
quando não lhe metiam no laço
no batuque,no jongo ou lundu
enchiam a pança agua
comiam de um parco angú
fartavam-se d´angustia e mágoa
dos ritos e rezas no calundu
cantar talvez lhes conforte
liberdade que se exalta e se cala
o castigo, um vazio de sorte
Talvez pra um fundo de vala
o sofrimento é um pouco da morte
Havia negros de ganho
com cestos, raízes, balaio
com ervas e frutas de apanho
nhonhô a olhar de soslaio
bugigangas,comidas,quitutes
mulheres vendendo desfrutes
a brancos buscando deleite
negrinhas co´a suas iaiás
miúdos e amas de leite
mucamas ajeitavam sinhás
flores nas vis carapinhas
negros buliçosos e irrequietos
negros com barris de dejetos
negras em trajes senhorinhas
Talvez vencendo os desdenhos
talvez um sorriso no cenho
Talvez o dia seguinte
Talvez mais nada
e não há!
Negro reverenciava o ar
as motanhas,as matas e o mar
sob a terra seu sagrado oculto
negro então cantava e se ria
resistia bravamente ao insulto
tristezas,humilhações e o medo
quem sabe um dia, a alforria
fugir, fugir, fugir do degredo
juntar-se a outros no quilombo
livrar-se do chicote no lombo
fugir feito um gato
correr o mundo sem destino
fugir de um capitão do mato
ou contorcer-se num vira-mundo
ou o tronco sob o sol a pino
Talvez um sonho de liberdade
e liberdade tardia houve
e o negro nunca soube
ganhou livre as ruas
como bem lhe aprove
sem eira,nem beira
ou tribeira